sozinha na noite

Seu João

 A campainha toca. Irrita muito. Detesto barulho de campainha. Culpa do seu João que toda manhã me acorda e me deixa mal humorado. "Bom dia, menino!", diz ele. Um velhinho franzino, de botas de plástico e jaleco branco. Voz rouca e baixa. Uma boa pessoa. Mas cresci com tanto ódio dele! Ah! Padeiro insuportável! Coitada de sua mãe (que Deus a tenha), já xinguei essa bendita de tudo quanto é nome!

Mas naquele dia frio a campainha não tocou. Mas eu acordei assim mesmo e fiquei olhando o relógio, acompanhando o ponteiro dos segundos para ver em qual lugar ele pararia quando o seu João tocasse a campainha. Estava atrasado. Levantei-me, fui até o portão. Sentei para esperá-lo. O tempo parecia passar rápido.... Entrei e percebi que hoje não tinha pão sobre a mesa. Tomei o café com leite, bolachas e manteiga, mas não foi a mesma coisa. Apenas o café com leite, sem o pão, sobre a mesa. Fiquei irritado por seu João não ter ido! Na manhã seguinte, o mesmo aconteceu, mas quando eu esperava seu João no portão, eis que surge um rapaz jovem, pouco mais velho que eu. Ele disse "meu pai faleceu e não irá mais trazer seu pão". Meus olhos lacrimejaram. Seu João nunca mais me perturbaria! Quanta falta o barulho dessa campainha me faz! Na verdade, nunca mais alguém me disse um "bom dia" com tanto brilho nos olhos, como seu João o fizera por anos. Aprendi que os outros são importantes em nossas vidas não pelo que fazem, mas pelo que representam.

Gabriela Santos

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Gabriela Oliveira Santos mora em São Lourenço, é professora de Filosofia, Empreendedorismo e Ética e autora do livro "A inquietação de Juliana", à venda na Banca do Calçadão e livraria " Encanto das Palavras", ambos na cidade em que reside.